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Salvador,
Bahia, 03/06/2000
Brites,
a capitoa
Consuelo
Pondé de Sena
São
poucas as mulheres que obtiveram o reconhecimento de suas existências
nos instantes iniciais da história pátria. Uma delas, no entanto, marcou
a sua trajetória magnânima - D. Brites, noiva e depois mulher do Capitão
de Pernambuco, Duarte Coelho. Essa mulher decidida e voluntariosa viajou
para o Brasil sabendo das dificuldades que haveria de arrostar nas ricas
terras desabitadas do outro lado do Atlântico.
Numa cabana de barro, erguida sob o pântano, passou a viver
com o marido, ali mesmo nascendo-lhe os filhos. Chegou a tempo de poder
observar o crescimento de Olinda, até que se transformou em “uma das mais
nobres e populosas vilas que há nestas partes”.
Com efeito, ali já existia, como em Salvador, um pouco mais
do que se poderia chamar "aldeia". Olinda, a mais antiga, fazia
parte da Capitania de Pernambuco "uma das mais prósperas do país,
onde os colonos também já progrediam. Ali os indígenas haviam se empenhado
no desenvolvimento da terra, talvez por ali exercer contínua presença
o mesmo Capitão que a conquistou, conforme está na História da Província
de Santa Cruz, de Pero de Magalhães Gandavo.
Ali viveu Duarte Coelho até 1554, sobrevivendo-lhe a vigorosa
mulher, D. Brites de Albuquerque. Viúva, mas ajudada por seu irmão, Jerônimo,
D. Brites manteve-se na terra enquanto seus filhos estudavam em Portugal.
Acompanhou pari passu o progresso de Olinda, que, em 1587, três anos antes
da sua morte, teria cerca de 700 habitantes, a ponto de, nos finais do
século, ter sido comparada a "uma pequena Lisboa".
Olinda alcançara tal desenvolvimento que, em 1561, já se abastecia
de quase tudo que havia no Reino, pois em seu porto chegavam mais navios
do que nos demais portos do país. Isto porque Olinda, junto do Cabo Santo
Agostinho, era o ponto de chegada mais próximo da Europa, além de situar-se
no caminho das armadas das Índias Orientais. Além disso, já mantinha intenso
comércio com a Europa, chegando anualmente de trinta a quarenta navios
para buscar: açúcar, algodão e pau-brasil. Em contrapartida, da Europa
vinham inúmeros produtos europeus e artigos de luxo, daí ser Olinda, àquela
época, o melhor centro de abastecimento do país, superior inclusive a
Salvador. Ali, por conseqüência, era possível comer pão de trigo europeu,
cozinhar com azeite e beber vinhos portugueses, desde que se possuísse
recursos para adquiri-los, pois essas mercadorias custavam caro.
De outra parte, a população da Capitania de Pernambuco era,
em grande contingente, de procedência mameluca, em virtude da sua colonização
mais antiga. Sabe-se que ao solicitar o envio de órfãs, o padre Manuel
da Nóbrega recomendava a D. João III, em relação à Capitania de Duarte
Coelho, o que se segue: "Nesta não são necessárias por agora, por
haverem muitas filhas de homens brancos e de índias da terra, as quais
todas agora casarão com a ajuda do Senhor; e se não casavam antes, era
seus pecados e por isso não se curavam tanto de casar".
Por esse texto, assinala Maria Beatriz Nizza da Silva, deduz-se
que a relutância do branco em contrair matrimônio com mameluca era menor
do que em relação às índias. O sangue branco que lhes corria nas veias
certamente diminuiria a infâmia de um matrimônio inter-racial.
Nessa terra em que se processava a miscigenação, a presença
forte e firme de D. Brites marcava a comparência da mulher européia com
seus hábitos e atitudes civilizadas em relação às mulheres mestiças, sendo
fácil pressupor a razão pela qual aquela lusitana se destacava entre as
demais. Ela própria adquirira uma parentela mestiça. Seu irmão, Jerônimo
de Albuquerque, em testamento de 1584, confessara julgar ser sua filha
uma certa mameluca, filha de sua escrava Maria. Quanto à Jerônima, outra
mameluca tida como sua filha, dizia ele que só Deus sabia a verdade.
O fato é que ignorando ele próprio o número exato dos filhos
mamelucos que tivera, tinham-no por pai de muitos deles.
Os próprios filhos de Jerônimo cuidaram de "contabilizar"
o número de irmãos que possuíam. Pero de Albuquerque supunha ter trinta
e tal meio irmãos e irmãs, sendo dez filhos do legítimo matrimônio de
Jerônimo com D. Filipa "e os mais com ele são filhos bastardos que
o dito seu pai houve em brasilas". Salvador de Albuquerque, outro
filho conta que seu pai Jerônimo tivera com D. Filipa oito filhos "quatro
machos e quatro fêmeas", além do que o dito seu pai fez em diversas
negras brasilas, que foram muitos os que já morreram , e ora são só vivos
entre machos e fêmeas, treze ou quatorze. Houvera contudo umas filhas
mamelucas tidas com D. Maria do Espírito Santo, a índia Arcoverde, que
foram legitimadas por Jerônimo de Albuquerque e fizeram bons casamentos
com dois fidalgos estrangeiros e quatro portugueses de boa estirp.
Toda essa gente, portanto, era parente da brava e diligente "Capitoa".
Consuelo Pondé de Sena é historiadora. professora universitária
e presidente do Instituto Geogbráfico e Histórico da Bahia.
(http://www.casadatorre.org.br)
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