Torre
de Tatuapara; Garcia d´Avila
Afrânio Peixoto |
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A CONQUISTA do Brasil teve
ares principais de desembarcar em terra (cabeça de ponte, como se diz
hoje, - a outra cabeça na Europa) e firmar-se aí, apesar os dois inimigos
– o marítimo (ou os piratas que acordaram mais tarde que os portugueses:
franceses e flamengos) e o terrestre (ou local, os aborígines, que resistiam
ao domínio dos descobridores); e penetrá-la, além da orla litorânea, devassando
os sertões, desenhando a periferia interna do Brasil: invasão e ocupação. Na Bahia esse dualismo pode ser simbolizado na
“Torre de Tatuapara”, na Casa da Torre, na casa de Garcia d´Ávila...,
Foi um colono protegido (dizia-se então “criado”, como hoje se diria “criatura”,
pois aquela palavra nobre se rebaixou a servo: Tomé de Souza era “criado”
de Dom Antônio de Ataíde, Conde de Castanheira, Ministro de Dom João III,
como ministro, que era o criado de agora, virou graúdo...Vide Camões;
“manda os diligentes ministros amostrar as armaduras”, (Lus., I, 67).
Não quis Garcia d´Ávila, “criado” de Tomé de Souza, ficar na cidade incipiente:
teve a coragem do largo. Arrendou terras, a 10$000 por légua, anualmente.
Obteve sesmarias e comprou sítios. Garcia d´Ávila se
disse”morador da minha torre de Tatuapara”. Gabriel Soares, seu contemporâneo,
depõe, admirando-se das casas e da capela “mui ornada, toda de abóbada”;
“tem toda sua fazenda em criações de vacas e éguas e terá alguns dez currais
por essas terras adiante”. O Padre Fernão Cardim acrescenta: “tem tanto
gado que não lhe sabe o número...Sua
capela é a mais formosa que há no Brasil, feita toda de estuque e tintim,
de obra maravilhosa de molduras, laçarias e cornijas; é de abóbada sextavada
com três portas e tem-na mui bem provida de ornamentos”...em torno, currais
e pastagens. E, com o inimigo repelido, a penetração no interior. Os currais
e as pastagens vão entrando, Brasil a dentro, até o São Francisco, até
além do Piauí, até os confins do Maranhão. E mais, o caminho mostrado.Garcia
d´Ávilla enriqueceu e aos seus; foi a fidalguia deles, sangue nobre português
misturado ao das cunhas indígenas: o êxito é que enobrece. Ao morrer em
1609 lega extensa e imensa riqueza de terras e currais a seu neto Francisco
Dias de Ávila, bisneto de Diogo Álvares, o Caramuru, cinco oitavos branco
e três apenas vermelho. E assim vão continuando. Um dos seus herdeiros,
Afonso Sertão, chegara ao Piauí a leste e ao Ceará ao norte; ao morrer,
legou à Companhia de Jesus trinta e nove fazendas. A Casa da Torre se
estende. Em meio, o São Francisco é o caminho móvel, para o sul e para
oeste...Podia pois realizar-se o outro binômio civilização brasileira:
o engenho de açúcar, no litoral, indústria do lucro, para fora, e a fazenda
de gado, nutrição da terra e força motriz das moendas, no interior, para
provê-la de exercício. Simonsen disse muito bem que a pecuária fora a
segunda linha do açúcar. A criação do gado
foi a ocupação do Brasil. Garcia d´Ávila foi o precursor nessa maior largura
dos meridianos. Pacificamente, o criador de gado fez mais ao norte que,
a ferro e fogo, o bandeirismo, ao sul. O espaço das bandeiras abaixo do
círculo de Cuiabá merece muito menos, ao empurrão dos meridianos, que,
acima de Cuiabá, o arranco das boiadas. As ruínas de hoje revelam que a casa forte fora
outrora prestadia cabeça de ponte no litoral, para desembarcar e ficar,
ficar e caminhar para o sertão. Capistrano de Abreu inventou uma “idade
de couro”, que é um dos marcos cronológicos de nossa civilização. Roberto
Simonsen revela que, sem a pecuária criadora, não haveria a indústria
açucareira, isto é o que valeu e valeria o Brasil, por séculos. Garcia
d´Ávila foi o pioneiro de uma dinastia; os seus descendentes podem declarar-se
fidalgos, são filhos de alguém”...Esse “algo”, que conta, é mais que pretendida
nobreza, é realidade de êxito. Nothing succeeds like success. O
primeiro “nobre” do Império, depois da Independência será o Barão da Torre
de Garcia d´Ávila. Esse êxito fê-los entrarem na história do Brasil,
ocuparem postos na sociedade do Brasil. Mas, deixando Tatuapara, isto
é, a terra para as raizes, os ramos e folhas definharam, a gente de Garcia
d´Ávila passou para os livros de linhagem. Nota extraída do Livro BREVIÁRIO DA
BAHIA |
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